“São tantas as minhas lembranças, e lembranças de lembranças de lembranças que já não sei em que camada da memória estava agora”.
Uma frase como essa, dita pelo narrador às tantas em “Leite Derramado”, deixa claro que este é um romance de memórias, daquelas em que o protagonista busca um encontro com o passado, busca se entender, compreender o seu presente pela análise (embora subjetiva) do passado. Assim, mergulhamos num caldeirão de memórias, medos, alegrias, aflições e tristezas. O que é o nosso presente, senão a soma do nosso passado.
Moribundo, Eulálio lembra da sua vida, seu conturbado casamento com Matilde e das coisas que o marcaram. Chico Buarque descreve esse passado num fluxo da memória, que faz associações vagas, e, por isso, às lembranças vêm quase que do nada, às vezes. As dores acabam sendo mais forte no cômputo final, por isso suas marcas são mais fáceis de serem lembradas.
No romance, também muitas vezes, simbólico, imagens fortes surgem para representar algo mais. No entanto, o leite como metáfora, às vezes, é usado como exaustão pelo escritor – seja para justificar o título (muitas vezes criticado) ou simplesmente porque o escrito acha bonito.
Chico Buarque, que vem de uma família rica e intelectualizada, fala da burguesia em “Leite Derramado”. O personagem pertence a uma família rica, mas com consciência social. “Muitos de vocês, se não todos aqui, têm ascendentes escravos, por isso afirma com orgulho que meu avô foi benfeitor da raça negra. Creio que ele visito a África em mil oitocentos e lá vai fumaça, sonhando em fundar uma nova nação para os ancestrais de vocês”, brada o narrador. Se isso é para ser levado a sério, ou se há uma carga de ironia nesse trecho não fica muito claro. Eu tendo a pensar na segunda hipótese, mas a ironia está no discurso do escritor – e não no personagem, pois este parece realmente levar a sério o que está dizendo.
Lançado em março passado, “Leite Derramado” se consagrou como um dos melhores livros de Chico Buarque – cuja bibliografia também conta com “Estorvo” (1991), “Benjamin” (1995) e “Budapeste” (2003). Sucesso de vendas – como os outros livros do autor -, para mim, ele se mantém no mesmo patamar do anterior. Não o vejo como uma grande obra de literatura – “Galiléia”, de Ronaldo Correia Brito, que li recentemente é muito mais poderoso, por exemplo – mas acredito que seja um romance regular de um escritor esforçado.
Escrito por alyssonoliveira
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